Infecção urinária de repetição em mulheres: quando investigar e como prevenir?

A infecção urinária é uma das condições mais comuns na prática clínica, afetando mais da metade das mulheres ao longo da vida. Em uma parcela significativa, os episódios passam a se repetir, configurando a chamada infecção urinária de repetição.

Além do desconforto recorrente, essa condição pode impactar significativamente a qualidade de vida, gerar ansiedade e levar ao uso frequente de antibióticos — o que aumenta o risco de resistência bacteriana e efeitos adversos.

Compreender os diferentes perfis de pacientes e os fatores envolvidos é fundamental para um manejo adequado.

 

O que é infecção urinária de repetição?

A infecção urinária de repetição (ITUr) é definida como:

  • 2 ou mais episódios em 6 meses, ou
  • 3 ou mais episódios em 12 meses

Pelo menos um dos episódios deve ser confirmado por exame de urina com cultura positiva, garantindo o diagnóstico correto da infecção.

 

Como ocorre a infecção urinária?

A maioria das infecções urinárias ocorre pela ascensão de bactérias da região intestinal para o trato urinário.

Os principais mecanismos envolvidos incluem:

  • Colonização da região periuretral por bactérias (principalmente E. coli)
  • Ascensão pela uretra até a bexiga
  • Alterações no microbioma vaginal e urinário
  • Fatores do hospedeiro (imunidade, anatomia, hormônios)

Em alguns casos, pode haver:

  • reinfecções (novas bactérias)
  • ou reativação de bactérias previamente presentes no trato urinário

 

Infecção urinária em mulheres jovens

Nas mulheres jovens, especialmente entre 20 e 30 anos, o principal fator associado à ITUr é a atividade sexual.

  • Fatores mais comuns:
  • Relação sexual (principal fator de risco)
  • Novo parceiro sexual
  • História familiar de ITU

Característica importante:

Muitas pacientes apresentam episódios típicos após o coito, o que caracteriza a chamada: infecção urinária pós-coital

Nesses casos, não há necessariamente uma doença estrutural, mas sim um fator comportamental associado.

 

Infecção urinária em mulheres pós-menopausa

Nas mulheres mais idosas, os mecanismos são diferentes e relacionados principalmente às alterações hormonais.

  • Principais fatores:
  • Redução dos níveis de estrogênio
  • Atrofia vaginal (síndrome geniturinária da menopausa)
  • Diminuição de lactobacilos protetores
  • Aumento da colonização por bactérias patogênicas
  • Esvaziamento incompleto da bexiga
  • Incontinência urinária

Esse conjunto de fatores aumenta significativamente o risco de recorrência.

 

Quando investigar?

Nem toda infecção urinária isolada exige investigação extensa. No entanto, nos casos de repetição, a avaliação deve ser mais cuidadosa.

  • Está indicado investigar quando:
  • Há critérios de infecção urinária de repetição
  • Os episódios são frequentes ou de difícil controle
  • Existe dúvida diagnóstica
  • Há falha terapêutica recorrente

 

Importante: a presença de bactérias na urina sem sintomas (bacteriúria assintomática) não deve ser tratada, na maioria dos casos.

 

Reinfecção ou recaída?

Diferenciar esses dois cenários é fundamental:

  • Reinfecção: novo episódio, geralmente por outra bactéria
  • Recaída (relapse): retorno da infecção em curto intervalo (até 2 semanas), sugerindo persistência da bactéria

Casos de recaída podem exigir investigação adicional.

 

Como é o tratamento?

O tratamento dos episódios agudos deve seguir:

  • Antibióticos de primeira linha (ajustados conforme cultura)
  • Duração curta (geralmente até 7 dias)
  • Preferência por esquemas que reduzam resistência bacteriana

O uso repetido e indiscriminado de antibióticos deve ser evitado.

 

Como prevenir novas infecções?

A prevenção é uma das partes mais importantes do manejo.

Estratégias comportamentais

  • Aumentar ingestão de líquidos
  • Evitar uso de espermicidas
  • Identificar relação com atividade sexual

Estratégias não antibióticas

  • Estrogênio vaginal (em mulheres pós-menopausa)
  • Cranberry (pode ser considerado)
  • Medidas para melhorar esvaziamento vesical

Estratégias antibióticas (casos selecionados)

  • Profilaxia contínua
  • Profilaxia pós-coital (especialmente em mulheres jovens)

Sempre individualizada e com orientação médica

 

O papel do urologista

O urologista é fundamental para:

  • Confirmar o diagnóstico correto
  • Evitar tratamentos desnecessários
  • Diferenciar ITU de outras condições (ex: bexiga hiperativa, dor pélvica)
  • Definir estratégias de prevenção
  • Reduzir uso inadequado de antibióticos

 

Se você apresenta episódios frequentes de infecção urinária, procure avaliação com um urologista.
O diagnóstico correto permite um tratamento mais eficaz, reduz recidivas e evita o uso desnecessário de antibióticos.

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências

  • American Urological Association (AUA). Recurrent Urinary Tract Infections in Women: Guideline, 2025.
  • Advani SD et al. Recurrent Uncomplicated Urinary Tract Infections in Women. Clinical Infectious Diseases, 2025.

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